[Vídeo] Resenha: Antologia Poética, Fernando Pessoa

Foi numa destas madrugadas de insônia que decidi ler este livro, Antologia Poética, do Fernando Pessoa. Esta é uma edição da Faktoria K de livros, uma chancela da Kalandraka editora, coleção Treze Luas, ISBN 978 989 8205 32 2.
 
Apesar da recomendação para ler este livro aos poucos, foi impossível: acabei lendo todo de uma vez, de uma sentada só, ou melhor, de uma deitada só. Apesar das diferenças de estilo dos heterônimos (falamos disso depois), Fernando Pessoa (e suas pessoas!) possui estilos muito fluidos, muito ritmados, e quando damos por isso o poema acabou.
 
O livro está lindo, possui poemas do Fernando Pessoa e dos seus heterônimos Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, e as ilustrações do livro são do Pedro Proença.
 
Não me parece muito fácil encontrar este livro no Brasil, mas abaixo neste post deixarei o índice, porque com o título dos poemas poderão lê-los isoladamente, através de pesquisas da internet ou de outros livros do Pessoa.
 
 

O mestre dos heterônimos

 
 
Duas verdades sejam ditas: primeiro que exploramos muito pouco as nossas capacidades intelectuais (capacidades estas que, inclusive, desconhecemos) e segundo que não conhecemos tanto assim nós mesmos, menos ainda as nossas limitações.
Quantas pessoas habitam em nós? Quantas personalidades temos? Se você pudesse ser outra pessoa, como seria?
 
Fernando Pessoa era. Fernando Pessoa era vários. Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caieiro são apenas algumas das “identidades literárias” de Fernando Pessoa, mas calcula-se que ele possuía uma lista enorme de heterônimos.
Heterônimo não é o simples fato de assinar um trabalho com um nome falso ou pseudônimo, vai muito além disso, tem a ver com a personalidade, como ser capaz de se tornar outra pessoa, melhor dizendo, criar uma outra pessoa, com vida própria, personalidade. desejos, estilo, data de nascimento e de morte.
Na minha opinião, bicho, isso é coisa de gênio. Porque já é tão difícil eu ser eu própria e, mesmo sendo dona da minha vida e das minhas verdades, não me contradizer! Tão difícil manter o mesmo estilo, ser consistente em tudo, mesmo sendo uma só! Mas afinal, quantos somos? Será que o “eu” genuíno existe, ou melhor, que parte de nós somos nós mesmos? Qual parte de nós é influenciada, qual parte de nós é apenas reação, o que somos em circunstâncias diferentes, nunca antes vividas? Se tivéssemos nascido num país muçulmanos, não seríamos cristãos, não nos vestiríamos como nos vestimos, e nem pensaríamos o que pensamos. Então, por que defendemos tanto os nossos pontos de vista, se eles são condicionados por aquilo que vivemos e experimentamos? A verdade do outro é menos verdade que a nossa?
 
A verdade. Talvez a criação dos heterônimos seja um reflexo dessa carência de verdade. Num mundo em que é tão difícil encontrar esta verdade, não será portanto necessário cria-la? Num mundo cheio de pessoas tão superficiais, não serão os heterônimos mais verdadeiros e inclusive mais interessantes?
Tenho um mordomo chamado Ambrósio, ele é sarcástico, irônico e às vezes também cínico. Não se trata de uma loucura, mas de uma criação. Não tenho alucinações, nem ouço vozes, tudo é criado pela minha imaginação. Felizmente, tenho poucos mas bons amigos, e, tendo amigos, não tenho a necessidade de cria-los. Entretanto, como não tenho um mordomo, criei o Ambrósio. Não deixo de me socializar por causa dele, não deixo de conversar com pessoas de verdade, se é que isso existe. Mas tem sido inspirador este relacionamento, no mínimo enquanto exercício criativo. Conversar com o Ambrósio é o mesmo que conversar comigo mesma, sabendo que entretanto ele não sou eu; ele não vai me dar as respostas que eu daria, porque afinal de contas ele não sou eu, é um senhor de idade, com educação inglesa, discreto e com tiradas rápidas. Habitualmente o Ambrósio me dá conselhos que eu não me daria, porque ele vê a vida de forma diferente da minha. Ele não é muito afetivo, mas é aquele tipo de pessoa que a gente sabe que gosta da gente, mas não sabe manifestar seu carinho. Homem exageradamente sério, me faz rir sem contar piada. Ah, Ambrósio, não precisa ser assim tão formal, eu digo, mas ele gosta de manter a pose. Às vezes, se chego tarde, lá vem ele embrulhado no seu pijama esquisito, como se tivesse ficado a noite toda à minha espera. Mas sim, é uma criação, eu sei muito bem que ele não é real, justamente porque fui eu que o criei. E como o criei, também posso “mata-lo” um dia, tal como Fernando Pessoa também fazia com seus heterônimos.
 

Vídeo

 
 

Poemas do livro, índice:

FERNANDO PESSOA
Autopsicografia
Hora absurda
Chuva oblíqua
Natal

ÁLVARO DE CAMPOS
Poema em linha reta
Vem, noite antiquíssima e idêntica
Olha, Daisy, quando eu morrer tu hás-de
Tabacaria

RICARDO REIS
Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio
Mestre, são plácidas

ALBERTO CAEIRO
Eu nunca guardei rebanhos
Para além da curva da estrada
Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia

Onde comprar livros do Fernando Pessoa

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